domingo, 26 de setembro de 2010

3 dias de fúria - parte 1

 
A Tempestade - Dia 1

Tânia estava casada há três anos, presa numa rotina comum, o casal não tinha filhos, Eduardo, seu marido, trabalhava durante o dia e boa parte da noite ficava na sala da casa onde moravam, bebendo vinho, ouvindo clássicos musicais, ficava a maior parte do tempo pensando na escuridão, a pouca luz azul do visor do rádio trazia-lhe calma; Enquanto isso, Tânia dividia-se entre ler um livro qualquer, preparar o jantar, arrumar o quarto para os dois e pensar sobre uma forte ausência que latente no coração, incomodava profundamente.

Quarta-Feira quando acordaram, ambos as seis da manhã, ouviram um forte trovão, a chuva que começou com uma ventania, fazia um enorme barulho quando as gotas tocavam o telhado da antiga casa e quando o vento fazia seu eterno uivo. O “bom dia” fazia parte da rotina, o café da manhã sempre o mesmo, pão do dia anterior, biscoitos e café forte, raramente sentavam-se juntos; Eduardo sentiu-se incomodado por não ter seu jornal diário, a chuva provavelmente o atrapalhara, saiu para o trabalho sem pressa, sem despedida.

Tânia observou seu marido sair com o velho carro que ele insistia em não trocar, trocou de roupa disposta a ir ao mercado, a casa era ampla, móveis velhos, teias de aranha no alto das paredes, quadros abstratos resultantes de antigas aulas de pintura que Tânia fizera meses atrás. Sentia-se infeliz porém acomodada. Com dificuldade fechou a porta da sala, a manhã cinza era rara, os ventos fortes faziam-na andar com lentidão, inevitavelmente molhava as pernas apenas por caminhar, o velho guarda-chuva do avô era um acessório que mantinha com carinho. Há meses sentia-se sozinha naquela vida, o marido sempre se atrasava na volta para casa; Chegou ao mercado sentindo-se aliviada, sobrevivera à relâmpagos e trovões, como uma provação que momentaneamente enchia seu coração de um fogo outrora esquecido, de uma paixão pelo acaso.

-Bom dia Tânia, achei que não viria hoje, chuva forte não é, dizem que vai durar dias.
-Quase não vim, mas precisava sair de casa, tenho que comprar algumas coisas mesmo, com licença.
Sempre gentil, distribuía um triste sorriso por onde passava, os cabelos um pouco molhados, olheiras levemente aparentes, o cansaço do comum que a atrasava e irritava. Pegou duas garrafas de vinho, pão, algumas verduras e um creme que vira por algum lugar.

-A Sra vai passar no cartão ou dinheiro?
-Cartão por favor.

A burocracia comum trazia-lhe sensação de poder, não se preocupava com dinheiro, apenas em assinar os recibos e notas fiscais, quando terminava de comprar algo essa sensação desaparecia, logo ansiava por mais e mais idas ao mercado ou lojas de qualquer coisa que lhe interessava.

-Desculpe, mas seu cartão foi recusado, a Sra quer pagar com dinheiro ou cheque?
-Recusado? Tem certeza? Tente de novo por favor.
-Pois não.

-Recusado novamente Sra, ainda quer levar os produtos?
-Quanto é mesmo?
-R$71,00.
-Tudo bem, vou levar sim.

Ao pagar a conta sentiu uma sensação estranha, aquilo nunca acontecera; Foi para casa pensativa, tentando achar explicações, imaginando como falar com Eduardo, talvez fosse um erro do banco.

A chuva estava mais forte, poucos carros passavam, tudo cinza, a praça onde sempre sentava para um breve descanso estava vazia, via-se apenas os pingos de chuva passando em sua frente, frenéticos e quase invisíveis. Caminhou para casa segurando forte as sacolas, a ventania ameaçava sempre jogá-las ao chão. Porém seu guarda-chuva quebrou-se, o sentimento ruim que já carregava pelo acontecimento no mercado piorou por perder algo tão precioso, fechou-o de qualquer jeito na mão determinada a consertá-lo um dia, voltou para casa correndo, secou-se e pôs-se à disposição da velha rotina naquele dia sem sol.


Eduardo chegou as 22h, Tânia havia preparado o jantar e estava lendo um livro na sala, o esperando.

-Oi amor.
-Oi, amor, hoje no mercado recusaram o cartão será algum problema no banco?
-Sério? não sei, amanhã ligo para lá; E o jantar, está pronto?
-Sim.
-Ótimo, vou tomar banho e comemos.

Jogou a maleta no chão, e foi despindo-se até o banheiro, Tânia lembrava de quando eram mais jovens, ela sempre o seguia, resolveu que iria o fazer de novo, quem sabe assim poderiam ficar juntos.
Foi despindo-se no caminho, quando chegou ao banheiro ele já tomava banho ela encostou aos poucos seu corpo junto ao dele, com as mãos limpava a espuma do rosto de Eduardo que sorriu ao vê-la. Beijaram-se. A penetrou com fervor, prazer intenso que não sentia há tempos, Eduardo pensava em Sonia, sua secretária, quando abriu os olhos viu Tânia, aquilo o atingiu como uma flecha a atravessar o peito, o pulmão por alguns segundos parecia não funcionar, sentiu o prazer desaparecer, como se a água do chuveiro estivesse fria, estremeceu e largou-a, não terminou o ato, saiu do banheiro e disse estar cansado, secou-se e foi para o quarto.

Tânia sentia-se suja, vazia, mais uma vez rejeitada; Vestiu suas roupas e foi servir o jantar, limpando sempre lágrimas que insistiam em sair de seus olhos.

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