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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Caminho de terra


Levitava pelo banco do carro, leve e feliz, o som de mpb deixava o verde mais vivo, o sol menos quente, o vento mais gostoso, usava um óculos escuro de formato quadrado, sua pele branca era lisa e fina, de detalhes fortes, uma tatuagem de fogo no braço que se destacava, olhava a paisagem que corria pelo seu olho, sentia o vendo e banhava-se em memórias, ao seu lado estava um dos tantos tios, aumentou o volume, e por duas ou três horas continuou a ouvir musicas calmas e renovadoras, estava vivo, estava bem.

***
Ao avistar a porteira sabia que chegara na “roça”, um lugar da família, desceu do carro prata e foi desengonçado abrir a porteira, tirou com cuidado o arame farpado e arrastou o tronco de madeira de seu caminho, o carro passou com calma e parou, esperou o jovem de cabelos pretos e lisos, penteados de forma a espetarem, usava uma blusa preta com detalhe em gola “V”, uma calça jeans preta e um tênis listrado, “Rock’nRoll” como diziam, entrou no carro e não colocou o cinto de segurança, logo outra porteira pela estrada torta e avermelhada, saiu do carro e abriu, dessa vez o carro não o esperou, chegara ao tão esperado destino, fechou com calma, olhou para a esquerda e viu o curral, algumas vacas, um cavalo meio perdido, na calmaria do campo, dali descia um morro longo recheado de verde, muita grama, a frente um caminho de terra feito pelo tempo, um enorme pé de jabuticaba, uma casa onde ficava um cachorro e um carro velho, mais a direita vários pés de café.
Seguiu pela estrada de terra, sentindo aquele cheiro relaxante de comida no fogão a lenha, cheiro de jabuticaba apodrecendo no chão, cheiro de rosas que estavam jogadas, virou pela estrada seguindo a lateral de uma casa amarelada, cuja base estava coberta de lodo, levantou o olhar e viu sua avó que o aguardava com um sorriso escondido,  caminhou com calma ignorando o calor de um sol teimoso, via-se somente a mulher vivida, terra, mais pés de jabuticaba, arvores altas mais acima e uma enorme montanha, o som predominante era de um rio que corria por lá.
-Vamos, o almoço está pronto.
A mulher falou com um sotaque carregado, virou novamente e já viu todos os seus tios sentados, sem camisa, as barrigas grandes de tanta cerveja, carne na churrasqueira e a cerveja sendo servida sem pudor. Cumprimentou a todos com sorriso tímido, entrou na casa, meio escura, pois somente recebia luz natural naquela hora, uma tia estava cozinhando o almoço, continuou a entrar já sentindo falta da bagunça da cidade, a enorme mesa de madeira antiga e a foto de um tio que cuidara do lugar por mais de 60 anos, morrera há pouco, suicidara-se por amor.
Um pouco mais a frente da mesa estava a entrada do banheiro, do lado uma passagem para um quarto improvisado, outra entrada para outro quarto, logo mais a sala com TV e da sala outro quarto, ao entrar na sala viu seus primos assistindo TV, sentou no chão e ali ficou por um tempo até que alguém interviu, chamando a todos para o almoço, foi ligeiro.

***
Na falta de novidade decidiu deitar um pouco na rede, balançava pouco vendo o tempo passar, viu o céu que estava um pouco carregado de nuvens ficar alaranjado pelo sol poente, respirava fundo, sentindo o sono chegar, todos bebiam e comemoravam suas vitorias na trabalho e na família.
Ouviu alguém chamando seu nome, era seu primo, o chamando para ir na beira do rio, subiu com dificuldade, estava de short e sentia os mosquitos picando sem vergonha, sua perna branca estava logo vermelha pelo incomodo, pisando nas folhas secas foi caminhando e seguindo os que para lá iam, tentava não demonstrar cansaço e quando estava mais cansado, chegou, o rio era fino, limpo, viu alguns peixes pequenos nadando tranquilamente, não tinha barulho nenhum além da água corrente, o sol ainda soltava alguns raios iluminando alguns feixes de água, abaixou-se e observou vários pontos pretos e pequenos, sem saber o que era pegou com a mão, estavam envoltos por uma cobertura gelatinosa, com facilidade destruiu o que parecia uma cobra transparente, uma mangueira com pontos pretos dentro, perguntou vergonhosamente o que era aquilo.
-São ovos de sapo! Legal né?
-Sim, muito.
Jogou no rio, a gelatina esquisita logo misturou-se na agua e na beira do rio ficou, esperando o tempo passar para os girinos nascerem, tal que o menino da cidade sentiu pesar o corpo, voltou para a casa velha porém aconchegante e lavou suas mãos, comeu um pouco de carne do churrasco, ouvindo piadas incompreensíveis de seus tios, entrou dando boa noite, sua cama estava arrumada em frente a TV, deitou sem pensar no que fazia, não pensava na vida, não pensava em nada, sem querer fechou os olhos e adormeceu.

domingo, 28 de agosto de 2011

O cheiro amargo da solidão - parte 1


-Pedrão! Cuidado!
Pedro parou rápido, por pouco não foi atingido por um carro em alta velocidade, o álcool ainda fazia efeito em sua cabeça, jurou ser a ultima dose de bebida que desceria por sua garganta, as roupas limpas e os pés sujos, agradeceu seu amigo por avisa-lo do carro, foi até o outro lado da rua onde sua “cama”  o esperava, um amontoado de papelão, morava na rua há pouco mais de dois anos.
Sua voz grossa, garganta sofrida pelos cigarros em excesso e pela pinga barata, mantinha o chapéu esperando moedas perto de sua perna, esmolas o sustentavam, a barba bem feita era raridade entre os moradores de rua dali, esse era o diferencial do popular Pedrão.
Todo seu dinheiro gastava com comida e produtos de beleza. Incomum.
Com as ultimas moedas recebidas foi até a casa de dona Ana, que ficava no fim da avenida, uma casinha simples de barro e papelão, deu a ela os trocados e tomou um belo banho. Sem pensar no futuro, somente lembrando do passado, voltou meio cambaleante para onde sempre ficava, sentou encostado na parede laranja de uma loja fechada e ficou olhando a avenida João Pedro, carros dos mas variados tipos, pessoas apressadas e com medo da violência, passou a mão em seus cabelos e com os olhos vermelhos viu o ultimo toque do sol na enorme torre da igreja, que mesmo distante, na visão de muitos mostrava sua hora.
18:00
Aos poucos seus amigos foram chegando, todos com apelidos de rua, poucos com seus nomes verdadeiros, quase esquecidos pelo tempo e pelas doses de cachaça. O que cantava desafinado, era o marquinhos, começou uma moda sertaneja das antigas, pelas risadas alheias percebia o desdém, continuava a cantar, o que tinha a perder? Marquinhos juntava papelão e as vezes roubava para sobreviver.
Pedrão bateu nas costas do amigo e comentou com seu português afinado “cante aquela meu amigo, aquela que me lembra Juliana”.
A musica agitada parecia romântica na voz desafinada dos outros companheiros, descompassados faziam uma desarmonia gostosa de ouvir, Pedrão fechou os olhos e lembrou da morena de sorriso grande, os cabelos pretos e sedosos, lembrou de quando a tocou pela ultima vez, perto da rua treze da cidade de Três Marias, foi lá, depois do sexo, que o marido traído bateu em sua esposa, bateu em Pedrão,  com uma arma velha errou o tiro na mulher, e acertou em si. Juliana ficou traumatizada, nunca mais o quis ver, sumiu no mundo, se prostituindo por sobrevivência, Pedrão perdeu o rumo, foi morar na rua, andava por todo lado, até que achou seu lugar, perto do muro laranja da loja abandonada, perto de marquinhos o cantor, no amontoado de papelão que revenderia depois, ao lado de seu chapéu de esmolas.
Depois da meia noite era meio que proibido cantar, os outros que dormiam nas ruas ficavam nervoso com a cantoria e sempre arrumavam confusão, Pedrão levantou de fininho, nos passos lentos com seu pé inchado, pegou uma sacola preta, ao abri-la retirou seu creme de pele, passou generosamente, seu desodorante, passou generosamente, seu perfume, se banhou novamente. Dormiu pouco depois, e acordou, como um Sr. Que dormira ali por obrigação, seu cheiro era doce, sua pele macia, sua barba bem feita, enquanto vários perguntavam como ele conseguia, Pedrão dizia que era natural e prosseguia com sua sina de pedinte, sobrevivendo dos outros, para seus perfumes comprar.

sábado, 14 de maio de 2011

Um presente exato, na urgência de viver

Aflito corria pelo corredor, tinha a pressa de quem não viveria, balançava as mãos de acordo com o corpo, com o suor. Os cabelos curtos suados, sem movimento, usava uma blusa branca, uma calça azul e um tênis que comprara há pouco. Passou pelo corredor azul sob os olhares suspeitos, ignorava-os, esse que corria, era eu.
Parei de correr sob o olhar do gerente, sorri levemente e fui até minha mochila, retirei um embrulho, caminhei até ele, que estava sozinho de frente a tela do computador, deixei ao lado de um copo d’agua e logo saí, não disse nada além de um “oi”.
Eu, César, havia deixado um presente tão sincero quanto qualquer verdade de minha vida, ele, Rodrigo, havia percebido o valor de cada palavra e gesto, e aos poucos tudo iria se ajeitando.
Tal que as palavras nem sempre controlam os atos, nem os atos controlam as palavras. Os sonhos que sempre se movem e renovam-se, algumas vezes são silenciados por uma noticia ruim.
Vou contar agora, já finalizando minha historia, sobre um sábado qualquer.
Depois de correr pelo corredor e deixar um presente há um pretendente, fui ao banheiro onde lavei meu rosto meio pálido, a tosse era forte assim como a dor, no silencio de um grande segredo, fui descansar do serviço com alguns amigos, conversamos sobre tudo, todos.
Quando o vi olhando para mim, meu coração vibrou, “quem sabe essa é a chance que tenho”, mas nossos olhares se desencontraram, talvez a carta que escrevi não tivesse o efeito que eu queria. O dia foi passando, as horas se acabando, os olhares que teimavam em se encontrar para logo se ignorarem, sina boba de uma paixão não mutua. Fui aos poucos desanimando, meu dia que estava bom, ficou de uma forma não exata, meio acinzentado, parei de lamuriar e abracei algumas pessoas em especial, caminhei pela escura cidade, solitárias ruas e calçadas, cumpri minha rotina até minha casa, lá já me esperavam alguns cuidados necessários, meu dia para muitos, terminou assim.
UM OUTRO DIA QUALQUER
Correram alguns em lágrimas para o banheiro, tentando controlar o pouco desespero de uma noticia inesperada, outros conversavam abalados, bobagens e mais bobagens. Rodrigo procurando saber o que acontecera ouviu o boato de minha morte, não acreditou, bobagem, mal entendido, ainda lembrou da carta no bolso e a releu.
“Eis aqui o meu livro, não consegui lança-lo, mas uma das poucas cópias fica para você, quero aquele abraço hoje, agora, vamos conversar lá fora, o assunto é meio sério, espero que possa compreender a urgência, mesmo sem saber o motivo, te adoro. César”
O que antes era um julgamento, agora virara culpa, pura bobagem, apenas sei que não fui eu quem deixou de amar demais.

domingo, 10 de abril de 2011

Sem título

Enquanto josé capinava sob o forte sol viu seu chefe chegar querendo conversar, o homem de terno suava como um porco, suava como josé.
-José, vim aqui para saber se está tudo bem rapaz...
-Na verdade, não senhor.
-E por que não?
-Ah Dr. Trabalho desanima um pouco né, as coisas la em casa não estão muito bem...
-Ah sim, mas o que na sua casa que está ruim?
-Minha mulher que nem conversa mais comigo direito, coisas complicaram...
-E o trabalho, por que desanima?
-Cansativo, o dia todo assim né.
-Ah, que isso, você tem só 20 anos, logo sua mulher melhora contigo e o trabalho é assim mesmo, parece um fardo mas quando não o temos, sentimos falta.
-Pode ser Dr...
-Bom, vou indo.

Saiu o rechonchudo Sr rente a cerca até a caminhonete cinza.

Tal que José capinava e sentia a dor de barriga forte e mais forte, largou enxada no chão e correu para a casa grande, entrou e foi direto para o banheiro, o primeiro que achou.

Ouviu uma mulher chamando o Dr Afonso, que tinha saído. O suor era tanto que só terminou com o alívio de suas necessidades físicas. Saiu gritando que o Dr. Afonso tinha saído, não ouviu resposta, começou a caminhar para voltar ao serviço até que o vaso de flores caiu dentro do quarto, preocupado resolveu olhar o que tinha acontecido.

Tal surpresa não seria tanta se não fosse quem ele amava, Sua mulher, que dizia trabalhar a tarde estava ali em pé de calcinha apenas, sabia que o marido vinha para ver o que acontecia, estava com olhar de desespero encostada na parede, José não sentiu nada além de o formigar intenso de seu estômago, quase vomitou, ficou cego, não sabe o que fez.

Dr Afonso chegou já tirando a roupa, chamava por Ângela com fogo entre as pernas, fornicavam há tempos, muito mais que José imagina. No quarto nada fora do lugar exceto o vaso de flores quebrado, De cueca e camisa social Dr Afonso se preocupou, já ia pegar a calça novamente e o telefone para ver o que aconteceu, mas não viu nem quem, nem quando. Apagou.

Foi fora da casa, perto da cerca, estava a terra movida e removida, posta nos corpos, a terra limpa e o sangue sujo.

- Realmente Dr. vou sentir falta de trabalhar para o Sr.

Fez a limpa em tudo na casa, tal que o Dr. quase não recebia visitas, era um agiota daqueles, de mal gosto, guardava o dinheiro sujo num cofre que por sinal estava aberto, dinheiro sujo que se limparia pelas mãos de José que nunca foi achado.

domingo, 20 de março de 2011

Sozinho...

Enquanto dirigia com o som alto, a velha pick-up vermelha rangia, balançava com a estrada de terra, teve a terrível visão, arvores nas laterais e acima, um céu azulado, estava anoitecendo, o ar vinha gélido, entrava pela janela e arrancava-lhe lagrimas, ouvia uma triste musica no toca cd’s enquanto acelerava e levantava poeira, coração acelerado e a lembrança de tudo, olhava para o lado e não havia ninguém, estava sozinho na vida, dirigindo para sua casa.

Quinze minutos depois, abriu o portão automático de sua fortaleza, a entrada em curva, a grama verde, uma casa com varanda grande e uma cadeira de balanço, o coração apertado pela solidão, estava determinado e como não tinha ninguém na vida, nada o impediria, tirou o saco branco de dentro do carro, abriu a garrafa de energético, colocou no teto da pick-up, tirou as cartelas de remédios desconhecidos, foi colocando um a um na outra mão, tomou 23 comprimidos no primeiro gole, tomou 15 no segundo, 7 no terceiro e 3 no ultimo gole, terminou de beber, aumentou o volume da musica de ópera, Adagio, deixou o som alto, “ao menos gastei meu dinheiro bem” pensou.

Caminhou e sentou-se na cadeira de balanços de madeira, olhou para adiante e viu uma pequena lagoa artificial que criou, via o céu ainda azulado, um tom roxo vinha com alguns pontos brilhantes e que refletiam, dando ainda mais sofrimento, eram as estrelas, as malditas estrelas que machucavam seu coração. Ouviu um barulho, eram os patos, pequenos patos amarelos, alguns grandes e desengonçados, abriu um leve sorriso e devaneou sobre seu passado, lembrou de sua mãe que partira há menos de um mês, sua ex-mulher que só queria dinheiro, seu filho preso em uma cama de hospital, e ele ali. Foi ouvindo a música Let it be, que sua visão esvaneceu, foi ouvindo a musica Trouble que adormeceu, a ultima imagem que ficou em sua mente foi de sua mãe sorrindo, linda. Linda. Linda.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Jonas - O início do terror

“Ele me viu na rua, se aproximou e pediu fogo, acendi o cigarro já sabendo o que o olhar malicioso pretendia, começamos a conversar sobre o tempo, do que fazíamos, menti ao dizer que trabalhava dando aulas de desenho, mas sei que ele acreditou, o bom de ter olhos azuis é porque ele não mentem. Perguntou se tenho numero de celular, mas disse que não. Me chamou para um café, dei um sorriso belo, e fomos, realmente eu estava feliz, não tive que fazer nenhum esforço para encontra-lo, afinal, ele me encontrou.

Sei que você não vai acreditar, mas ele realmente era alguém na vida, não um fracassado que conta vantagem de um celular da moda ou uma marca falsificada, ele tinha livros, livros em seu nome, contatos com pessoas realmente importantes, disse que tinha influencia e que se eu quisesse ele me incluiria nos projetos de livros infantis, que eu poderia ensinar as crianças desenhos fáceis, dinheiro rápido e fácil, aceitei mais que depressa mesmo sabendo que isso jamais se concretizaria.

Acho até engraçado essa parte, dei uma cantada nele, aquele velho, foi nessa hora que comecei a sentir nojo, sei que não deveria ter gostado de nada, mas o começo da conversa foi realmente agradável, mas quando ele respondeu a minha cantada com uma passada de mão na minha perna, meu sangue parecia lava quente, nessa hora fingi, fingi uma simpatia e um desejo, meus olhos azuis me ajudam muito, sei que ele ficou hipnotizado.

Pedi que me encontrasse ali em frente à cafeteria às dez da noite, ele sorriu e disse q tudo bem, antes que fosse embora perguntei-lhe sobre a marca de aliança, ele ficou sem graça mas confessou que era casado, fiquei com raiva dele, maldito.

Ele saiu primeiro deixando a conta paga ao menos, agora vem a parte que mais gosto, o segui. O velho andava desconjuntado, não era gordo nem magro, andou por algumas ruas estranhas, entrou numa loja e saiu com um embrulho, era uma loja de chocolates, quando cansei de segui-lo foi a minha surpresa, encontrou com uma mulher aparentemente da mesma idade, se beijaram e caminharam juntos, assustado saí rápido dali, pelo menos não sentiria culpa de nada que fizesse. Ninguém merecia aquilo, acabei conhecendo de vista a mulher daquele verme.

Fiquei andando e analisando as ruas, sei que devaneava e parecia louco às vezes, sorri sozinho e conversei sozinho sim, mas você sabe que faz parte do meu processo criativo, quando olhei o relógio já era quase a hora de encontra-lo, estava só, um pouco frio, mas coloquei minhas luvas de lã, andei por dez minutos e o vi em pé, estava mais arrumado, velho nojento. Cheguei perto numa felicidade que até me enganava, não foi preciso muito esforço para que meus olhos brilhassem, precisei apenas do ângulo certo para a luz.

Começamos a andar quando ele tirou do paletó o embrulho que antes te falei, quase fiquei comovido, se não tivesse sentido repulsa e ânsia de vomito, sorri novamente e fiz um olhar de abandono, o que fez parecer paixão, peguei os chocolates e não abri, disse que guardaria para depois, bicha, verme, comecei a guia-lo, disse que iriamos a minha casa, andamos por ruas movimentadas pois não queria assustá-lo, até que viramos duas ruas, aí o movimento pouco a pouco foi desaparecendo, ele sentiu medo, sei que sim, mas descontraiu conversando sobre sua mulher e de como não sentia-se bem com ela, eu retribui o voto de confiança permitindo-lhe uma conversa mais suja, falamos de sexo abertamente, vi que ele excitou-se, o volume era grande dentro das calças, por outro lado, estava entediante, queria mais ação, chegando a rua que queria parei perto do muro úmido e coberto de lodo, ele veio perguntando por que parei.
“Quero um beijo”, é o preço que pagamos para ter prazer, ao menos o preço que paguei, o beijei com tanto nojo, o que antes era tédio agora era ânsia de terminar logo, disfarcei a careta e fui passando a mão pelo corpo dele, nesse momento o embrulho estava no chão, mas foi simples, mordi de leve o pescoço e ele delirou um pouco levantando a cabeça e me dando liberdade para continuar, continuei a lamber até a orelha, descia a língua até o colo, estava me preparando, logo não precisaria tocá-lo, minha mão direita em seu queixo me dando firmeza e minha mão esquerda nos cabelos, foi rápido, movi com força até ouvir o segundo estralo, o primeiro era falso, o segundo sim, indicava que havia quebrado, o velho era pesado, com os olhos abertos deixou o peso em minhas mãos, realmente não consegui segurar, com esforço deitei ele de barriga para cima, limpei minha saliva de seu corpo, peguei o embrulho e vim para casa comendo chocolates, nossa, como foi bom, eu juro que me excitei quando vi ele caído ali, é lindo quando um corpo cheio de vida, dá seu ultimo suspiro e fica rijo de repente, logo amolece novamente, esse foi mais um, não lembrava o nome dele, só lembrei quando vi nos jornais, Angelo, colei a reportagem aqui na minha parede. É isso, caso eu faça de novo volto a lhe escrever.”

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Reencontro

Cheguei à festa sem pensar em nada, a não ser me divertir, alguns familiares, alguns desconhecidos, tudo estava bem. Até que quem eu não queria encontrar apareceu, meu primo, sim, ele entrou pela sala como uma pessoa normal, as botas típicas de um cowboy, uma fivela dourada e uma blusa xadrez, traços de homem, rosto de anjo.
Olhares que teimam em não se encontrar, evitam tal encontro pela chama que sempre aparece, assim estávamos, nossos olhares então, por acaso se encontraram como fogo, o segredo é que eu e ele sempre nutrimos uma paixão mutua, ainda lembrava cada centímetro de seu pênis, grosso e que na penumbra da noite não tinha cor, apenas forma, uma forma que encaixava em mim como uma roupa, como uma bala na boca, ainda lembrava do sabor, e principalmente, do desejo que sempre senti.
Caminhou pela sala com as botas em seu barulho comum, um perfume que nunca mudou, uma mão grossa, lida da roça, um braço grande, longo, saiu sem olhar nos meus olhos, ele já sabia que ao me olhar, sentiria arrepio e desejo, por isso preferiu evitar, meu pênis rijo ao perceber sua presença teimava em não acomodar-se, instigava meus pensamentos, quando ele saiu, foi um certo alivio.
Eu bebia um copo de cerveja, vi que a cerveja acabou e teria de ir buscar, sabia também que lá, estaria ele, o desejo de todo o sempre. Fui na lombeira de álcool no sangue, o vi novamente e o ignorei, bebi, e assim persisti durante longas horas de lembranças e coração acelerado. Até que a cerveja acabou, hora de dormir, eu sem cama certa, algumas pessoas iriam dormir no carro, ele arrumou uma cama de solteiro para ele, e minha avó sugeriu:

-Felipe dorme com Victor, dois homens, nada de mais.
-Por mim tudo bem.

Respondi já sentindo o palpitar de meu corpo. Foram todos se deitando, nós num quarto sozinhos, pela primeira vez sozinhos realmente, ele abriu cada botão da camisa levemente, olhando para mim, eu o olhava intensamente e ele ria discretamente, tirou a blusa e jogou em minha direção, minha blusa gola V não tinha botões, tirei rápido e também joguei para ele como retribuição. Ouvimos um barulho e disfarçamos, era minha avó perguntando se estava tudo bem, disse q sim e tirei a calça, a cueca preta, e ele com cueca vermelha, fechei e tranquei a porta, deitamo-nos juntos, um de frente para o outro,  nossos pênis estavam pedindo pelo toque, o cheiro comum de algodão, uma pequena luz q vinha da lua iluminava suas formas, fui aproximando a mão, que em poucos momentos se encontrou com a dele.
Ele bruto levou minha mão direto a seu pau, pulsava quente, me desejava, fiz o mesmo, ele me masturbou rápido, bruto, sem jeito, com certa pressa, já eu fiz com calma, afastei-me de forma a alcançar seu pênis com minha boca, chupei ate o fim, um enorme pênis que entrava em minha boca e um leve gemido que dele saia, junto a seu delicioso cheiro.
Êxtase, continuei clamando pelo seu gozo, ele empurrava minha cabeça com suas enormes mãos, perguntou se eu queria ser chupado, disse que sim, veio sem jeito, com sede,  apertava-me a bunda e eu já sabia o que queria, foi simples, virei, e ele com ajuda do cuspe, veio com calma, entrou a enorme cabeça, senti rasgar, não liguei, era fogo demais, foi entrando aos poucos, ate que totalmente dentro, começou a ir rápido, eu tentava conter o gemido, a dor, o prazer me ajudava, o saco dele batia em mim de forma continua, barulho, calor, desejo, prazer.
-Para, por favor, tá doendo!
-Não, tô quase gozando, deixa...
“Quase gozando” deixei, queria sentir seu leite em mim, não demorou muito quando uma coisa quente me molhou, mais quente que um enorme pau que era o dele, havia gozado, que delícia, que sonho, tirou  o pau com carinho, eu fui ver se não havia sujado, e não havia. Era minha vez, meu pau duro, penetrei-o rápido, ele me puxava, eu metia com tesão, transa dos sonhos, pouco depois senti minhas pernas repuxando, era prazer, era o gozo que chegava, gozei muito, sentia os esporros que entravam nele, e ele mordia os lábios  me apertando , queria isso, queria que eu o desejasse, mal sabe ele que sempre o desejei, desde a nossa primeira e nossa ultima vez juntos.
Continuamos a nos tocar a noite toda, e o beijo verdadeiro veio apenas ao amanhecer, quando eu o vi olhando para mim, eu olhei a ele, beijamo-nos rápido, gostoso, quente, com as línguas extremas a se procurarem. Foi o ultimo beijo até hoje.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A Última festa

No banheiro branco e cinza, sofria por estar assim, tentava disfarçar, saiu e sentou-se numa poltrona, Brandon chegou em seguida aconchegando-se entre suas pernas, sabia que eram os últimos momentos com quem sempre foi seu grande amor, Nick, bronzeado com seu olhar tipicamente grego, sim, eram seus últimos momentos juntos, a doença que atingia Nick traria demência em poucas horas, não havia escolha, mas isso não seria motivo para estragar uma última festa, uma despedida.
Ficaram lembrando de velhas viagens, viagens que fizeram como casal, todo ouviam atentos às ultimas palavras de alguém tão forte. Nick cortou o assunto de súbito.

-Com licença.

levantou-se tranquilamente e chegou perto de seu melhor amigo, "vou cheirar uma carreirinha".

Era o momento, o sinal, estava sentindo fome, mas não podia comer, os remédios que tomariam o levariam direto ao esquecimento, a libertação da doença e de qualquer tristeza em vida sentida. Caminhou decidido até o banheiro, não estava nervoso, apenas pensava em Brandon, em seu eterno amor.

Abriu a porta do banheiro e deixou o Whisky no balcão, tirou um pote pequeno e despejou a cocaína,
abriu junto um papel com vários comprimidos vermelhos, o Whisky era para isso, ajudar no processo de esquecimento. De morte.

A consciência de que em poucos minutos estaria morto,

-Está feito.

Amparado por Brandon, caminhou até o quarto, sentaram-se. Mesmo com todos os contratempos, ainda haviam lágrimas nos olhos.

-Vou sentir tanto a sua falta!
-Você vai encontrar alguém...
-Mas eu quero você.
-Eu vou estar por perto.

Olhando um ao outro, deixando o amor fluir e voltar ao coração
mesmo que por um ultimo momento,
beijaram-se intensamente,
o choro inevitável, Brandon repousou sobre os ombros de Nick e ali depositou seu amor maior, sua redenção.

Na sala sua mãe estava apreensiva, olhava para lareira esperando que o fogo aliviasse seu sofrimento, viu o filho colar sua própria foto em um quadro de pessoas que morreram ou se mataram pela AIDS.

Nick Stark

-Vamos, sente-se no meu colo mãe. quero que me prometa uma coisa, que vai parar de fumar...
-Não posso.

Respondia sem intenção
sem acreditar no adeus

-Então me prometa que não usará preto
-Prometo
-Eu sempre cuidei de você mãe.


Chamaram-no para seus momentos finais, rever fotos de familia, todos consentindo, pois sabiam que ele não queria morrer por demência, seco em uma cama, sem memória, essa era uma despedida especial, unica, verdadeira, ele morreria em sua beleza natural.

-Onde estão minhas chaves?
-Nick, você não precisa das suas chaves mais.

Era a hora, alguns saíram, sua mãe ficou olhando para ele e ouviu suas ultimas palavras a ela "EU AMO ARTE"

Brandon o carregou sem dificuldade, com dor no coração, ouvia os gritos de Amalia mãe de Nick, sofrendo pelo filho que partia, era dor, amor demais.

-É isso, não tenha medo nick, é o Brandon, deite-se e pense em nós dois juntos, naquele teleférico, aquele sol quentinho, aquele ar gélido em nossas faces, estamos quase no topo da montanha, e agora, estamos descendo juntos, voando para baixo, esquie comigo nick,

a cena transformou-se e como um sonho, os dois, em pleno amor, em plena felicidade, juntos para um todo sempre.

"Adeus Nick"

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Uma pequena passagem...

Na janela sentiu o vento soberano atrapalhando-lhe de manter os olhos abertos, respirou fundo e saiu a caminhar, sua serenidade vinha de tudo que fez no dia anterior, disse que o amava, disse por uma mensagem no telefone,

"Sei que acha que somos somente amigos, não aguento mais o segredo, EU TE AMO, não me responda, me encontre amanhã perto da linha do trem, onde nos conhecemos, se aceitar ficar comigo para sempre, se não, me perdoe, TE AMO."

Estava com a pele perfumada e com roupas leves, sua pele branca com sardas nas bochechas, sua beleza estranha, correu por parte do caminho, saiu da rua da cidade subindo um morro de mato amarelo, o vento refrescava de acordo com que o sol queimava-lhe as bochechas, pensava nele como o grande amor de sua vida, tinha certeza que ele estaria ali a esperar-lhe, afastou-se de tudo, não conseguia ouvir um barulho sequer.

Sentou-se perto da linha do trem e esperou, seu coração só pensava em como o veneno do amor dói ao esperar o amado, ao esperar um sim ou um não, pegou um graveto e ficou ali brincando com a terra, volta e meia olhava para o horizonte, para a direção de onde ele viria, respirava quente, fundo e nervoso, o veneno do amor já fazia efeito e sua pele esquentava mais que o necessário, suava frio, e principalmente, amava a possibilidade de seu grande amor, chegar em instantes.


quinta-feira, 7 de outubro de 2010

3 Dias de Fúria Parte 3

Na madrugada a chuva que antes já era severa, atingiu proporções inimagináveis, o volume de água que caía era além do esperado, todos os noticiários falavam sobre a tempestade que abalava a cidade. Eduardo acordou com o barulho de um forte relâmpago, o barulho estendeu-se até a queda de uma árvore, estava assustado, olhou para o lado e Tânia dormia profundamente, não queria acordá-la, foi até a cozinha beber um copo d’água.
Adormeceu rápido ao som daquela forte chuva, o tempo frio era-lhe agradável.
Quando ouviu o despertador, olhou diretamente para janela, o dia que não parecia dia, o frio que estava mais intenso, Tânia já havia levantado, estava na cozinha a preparar o café, Eduardo olhou para o celular que vibrava no modo silencioso, era Sônia, sua secretária.
-Alô.
Eduardo atendeu e conversou num sussurro, não queria que Tânia ouvisse sua conversa.
-Oi Sônia, como assim hoje não pode ir, pela chuva? Mas eu já havia reservado tudo... Tudo bem, saudades de você, amanhã nos vemos, depois remarco as reservas. Beijos.
Tânia ouvia a conversa do corredor, com dificuldade, mas conseguiu entender cada palavra, sentiu a decepção que a atingia, abalou-se enquanto sentiu seu coração queimar, a decepção de confirmar o que há tempos já desconfiava, sentiu ódio daquele homem que tanto mentia. Voltou para a cozinha em silêncio, abriu o armário e preparou a mesa para os dois.
Eduardo tomou o café enquanto sua mulher bebia um suco de laranja, comeu um sanduiche e tomou mais café... Ele e Tânia não conversavam, percebeu que sua mulher o olhava intensamente enquanto comia, ao mesmo tempo em que o barulho da chuva parecia diminuir, ou distanciar, no tempo em que percebia a visão duplicar-se perdeu o controle de sua mão, o pão caiu rápido e sua visão escurecia por completo enquanto  o corpo caia ao chão empurrando a cadeira onde sentava. Desmaiou sem o menor controle ou consciência do que acontecia, Tânia calmamente limpou a sujeira e jogou o café no ralo da pia, com muita dificuldade, mas movida pela raiva, carregou o marido até o quarto, mordendo os lábios, em uma determinação voraz, amarrou-o, sem dó, quando o tinha sob controle ainda inconsciente começou o pranto sem som, ligou o rádio e tocou um CD, alguma música que misturava chuva com lembranças de dias felizes, alguma canção que falava de dor de perder um amor e outra canção que dizia sobre como é chorar sentindo ódio pela traição.
Sentada em frente ao marido esperou-o acordar, a chuva severa fazia muitos barulhos, Tânia não se assustava tinha um ódio representado por uma faca na mão direita, o olhar sem brilho e os lábios trêmulos, começou a chamar pelo marido. Eduardo, EDUARDO, EDUARDO...
Quando Eduardo acordou a mulher estava parada olhando-o fixamente, viu as mãos amarradas, sabia que poderia sair, mas tinha medo, não entendia bem porque tudo aquilo.
-Tânia meu amor? O que está acontecendo?
-Amor? O que está acontecendo?
Não perguntou novamente, nesse momento todas as possibilidades ocorriam-lhe, mas não queria acreditar que a mulher descobrira.
-O que você me deu Tânia, por que eu desmaiei, por que estou amarrado?
Os olhos de Tânia encheram-se de lágrimas novamente, o ódio já havia passado, ficava uma dor pelo fracasso no relacionamento, por ter falhado como mulher. Falou com voz fraca e dolorida.
-Você me traiu Eduardo, me traiu...
-O que está dizendo meu amor, nunca faria isto.
-Menti... Mentiroso... Eu sei, eu já sabia e confirmei hoje, você e aquela vag...
-O que está dizendo meu amor, você está enganada.
Tânia levantou-se e saiu do quarto, foi chorando e resmungando, deligou o rádio e ficou sentada no sofá, balançava para frente e para trás, chegava a imaginar que perdera a razão, lembrava-se do marido com outra, pensava que a razão estava com ela, para frente e para trás, na fragilidade de um momento de fúria ao desespero.

domingo, 3 de outubro de 2010

Conto da Tarde sem COR

Tarde linda, todas as cores fortes, meu coração acelerado e eu sabia que você iria chegar, iria confundir-me nos teus abraços beijar-me. Quando tentei te ligar você não atendeu, mas eu sabia que você viria, você lembrar-se-ia de mim, por todas as palavras de amor, por todo sentimento...
 Ao vestir minha melhor roupa, preparar aquela sobremesa especial que você tanto gosta, foi uma felicidade tão grande de imaginar você ali, em momentos de paz, a ser cuidado por mim. Fui ao seu encontro, sentei-me num banco e fiquei admirando a paisagem, as pessoas q passavam, todas com suas violentas e repentinas vidas, com pressa, mas eu ali era uma singularidade, estava radiante, em paz. Esperei cinco minutos e então seu ônibus passou, mas não o vi chegar, ainda não era você. Pensei em algumas possibilidades, provavelmente se atrasara, viria no próximo.
Fiquei lembrando momentos, quem sabe assim me perderia em lembranças e você apareceria de repente.


Como quando me ligou e disse estar a minha espera, era meu aniversário e você com um presente, um sorriso e sem querer trouxe minha felicidade. Ficamos horas no meu quarto compartilhando segredos, sorrisos e sonhos. Como eu te amava, a cada segundo eu te amava mais.

Saí logo de meu pensamento, a tarde ainda era perfeita, a sinfonia dos sons ao meu redor, a brisa parecia acariciar meu coração me confortando, parecia trazer um calor abençoado, uma felicidade e um sorriso, tudo para quando você chegar. Até que o segundo ônibus passou, você não apareceu.
Tentei te ligar novamente e não atendestes... Porém, eu queria saber ate que ponto se importava, esperaria pela eternidade até você aparecer, esse era meu desejo.
Mas foi após uma mensagem que comecei a perceber o que estava acontecendo, “Não poderei ir, estou viajando hoje a noite, breve te ligo” ao terminar de ler, toda a cor daquela tarde havia desaparecido, me sentia preso, sozinho e a sangrar, foi depois deste dia que você nunca mais apareceu, nunca mais veio, nunca mais ligou ou atendeu as minhas ligações. Foi depois desta tarde que minha vida ficou sem cor, meu rosto sem um sorriso e meu olhar sem brilho... Mas você não se importou, ah, mas como eu te amei, continuei a esperar, pela eternidade em meu coração, mas meu corpo não aguentou e se moveu, fui para casa, segui minha vida, a eternidade em meu coração e o tempo em minha face. Hoje pago por esse amor, não vejo cores como um dia vi em seus olhos, não sinto amor como quando te amei, não te vejo, por que você fugiu de mim, desapareceu no vermelho de meu sangue ou no vão de lembranças que ficaram no momento em que vi o ultimo ônibus do dia passar.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

3 dias de fúria - parte 2

Com o rosto ainda vermelho das lágrimas, Tânia sentou-se a mesa, Eduardo sem uma palavra acompanhou-a. A Chuva estava forte, relâmpagos e trovões pareciam dizer tudo que acontecia pelo mundo, tudo entre eles. Tânia sempre se perguntando o que estava errado, por que o casamento havia se tornado frio, azul. Ao perceber uma nova lágrima Eduardo a perguntou por que chorava. As palavras atingiram Tânia como um raio atinge uma árvore. Olhou-o diretamente nos olhos, tentando conter as palavras, o descontrole e mais lágrimas que acompanhariam.

-Estou bem.
-Não, não está, não parece bem.

Continuaram a jantar, sem mais palavras, a luz da casa parecia falhar, o barulho da chuva no telhado estava alto, realmente uma tempestade, e num forte relâmpago as luzes dos postes da rua apagaram-se, Tânia estremeceu por alguns segundos e alarmou-se.

-Provavelmente eles devem cortar a luz.
-Quem?
-Como quem? Você sabe, sempre que cortam a luz da rua, logo cortam as luzes das casas, por precaução.
-Não, não é assim, você deve estar assustada com a chuva, acalme-se, vem termine de comer.
-Não, vou tentar dormir.

Quando Tânia deu um passo em direção ao quarto, as luzes apagaram-se. Eduardo que ainda jantava ficou assustado.

-Merda, eu sabia que ia acontecer. Vou acender uma vela, espere um minuto.

Caminhou cega pelos cómodos da casa até o quarto, abriu a primeira gaveta da cómoda e retirou duas velas, acendeu-as com os fósforos que guardava junto, caminhou vendo o que as chamas iluminavam, viu a sombra de seu marido, como ele havia se tornado tão diferente, sempre se perguntava.

-Aqui.
-Obrigado, vou deitar também, não demoro.

Eduardo chegou pouco depois dela, deitou do lado esquerdo como já era de costume, virou para o lado dela, a janela aberta mostrava apenas a intensa escuridão daquela noite, o céu iluminava como fim de tarde cinzento a cada relâmpago que bradava forte, a luz entrava no quarto atenuando as formas desconexas dos dois corpos e parecia gritar no coração de Tânia, que por um momento sentiu ódio daquele homem ao seu lado.

As mãos de Eduardo acariciavam-na, ele a apalpava forte, intensamente, subindo pelo contorno de seu corpo.

-Não.

Tânia disse virando-se para o outro lado.

-Não? Como não?
-Para que tentar, só porque está escuro? O que é, o cansaço passou?
-Lá vem você de novo usando minhas palavras, nossa, estou cansado viu.
-Cansado? De que? Do trabalho? Cansado de que? Qual o motivo de você ter mudado tanto?

Eduardo sentiu o peso daquelas perguntas, intensas e fortes, não sabia ao certo o que sua esposa pretendia ouvir dele, respirou fundo e virou para o outro lado, olhava a janela, a chuva e o tempo, o tempo que passou e o desejo que parecia fugir-lhe da mente. Tânia também calou-se, sentia uma raiva constante pois sabia que ele não a tinha como antes, e por um momento pensou “Talvez eu também não o tenha como antes”, rezou para que esse pensamento não fosse verdade e que como mágica, tudo mudasse e voltasse ao normal.

domingo, 26 de setembro de 2010

3 dias de fúria - parte 1

 
A Tempestade - Dia 1

Tânia estava casada há três anos, presa numa rotina comum, o casal não tinha filhos, Eduardo, seu marido, trabalhava durante o dia e boa parte da noite ficava na sala da casa onde moravam, bebendo vinho, ouvindo clássicos musicais, ficava a maior parte do tempo pensando na escuridão, a pouca luz azul do visor do rádio trazia-lhe calma; Enquanto isso, Tânia dividia-se entre ler um livro qualquer, preparar o jantar, arrumar o quarto para os dois e pensar sobre uma forte ausência que latente no coração, incomodava profundamente.

Quarta-Feira quando acordaram, ambos as seis da manhã, ouviram um forte trovão, a chuva que começou com uma ventania, fazia um enorme barulho quando as gotas tocavam o telhado da antiga casa e quando o vento fazia seu eterno uivo. O “bom dia” fazia parte da rotina, o café da manhã sempre o mesmo, pão do dia anterior, biscoitos e café forte, raramente sentavam-se juntos; Eduardo sentiu-se incomodado por não ter seu jornal diário, a chuva provavelmente o atrapalhara, saiu para o trabalho sem pressa, sem despedida.

Tânia observou seu marido sair com o velho carro que ele insistia em não trocar, trocou de roupa disposta a ir ao mercado, a casa era ampla, móveis velhos, teias de aranha no alto das paredes, quadros abstratos resultantes de antigas aulas de pintura que Tânia fizera meses atrás. Sentia-se infeliz porém acomodada. Com dificuldade fechou a porta da sala, a manhã cinza era rara, os ventos fortes faziam-na andar com lentidão, inevitavelmente molhava as pernas apenas por caminhar, o velho guarda-chuva do avô era um acessório que mantinha com carinho. Há meses sentia-se sozinha naquela vida, o marido sempre se atrasava na volta para casa; Chegou ao mercado sentindo-se aliviada, sobrevivera à relâmpagos e trovões, como uma provação que momentaneamente enchia seu coração de um fogo outrora esquecido, de uma paixão pelo acaso.

-Bom dia Tânia, achei que não viria hoje, chuva forte não é, dizem que vai durar dias.
-Quase não vim, mas precisava sair de casa, tenho que comprar algumas coisas mesmo, com licença.
Sempre gentil, distribuía um triste sorriso por onde passava, os cabelos um pouco molhados, olheiras levemente aparentes, o cansaço do comum que a atrasava e irritava. Pegou duas garrafas de vinho, pão, algumas verduras e um creme que vira por algum lugar.

-A Sra vai passar no cartão ou dinheiro?
-Cartão por favor.

A burocracia comum trazia-lhe sensação de poder, não se preocupava com dinheiro, apenas em assinar os recibos e notas fiscais, quando terminava de comprar algo essa sensação desaparecia, logo ansiava por mais e mais idas ao mercado ou lojas de qualquer coisa que lhe interessava.

-Desculpe, mas seu cartão foi recusado, a Sra quer pagar com dinheiro ou cheque?
-Recusado? Tem certeza? Tente de novo por favor.
-Pois não.

-Recusado novamente Sra, ainda quer levar os produtos?
-Quanto é mesmo?
-R$71,00.
-Tudo bem, vou levar sim.

Ao pagar a conta sentiu uma sensação estranha, aquilo nunca acontecera; Foi para casa pensativa, tentando achar explicações, imaginando como falar com Eduardo, talvez fosse um erro do banco.

A chuva estava mais forte, poucos carros passavam, tudo cinza, a praça onde sempre sentava para um breve descanso estava vazia, via-se apenas os pingos de chuva passando em sua frente, frenéticos e quase invisíveis. Caminhou para casa segurando forte as sacolas, a ventania ameaçava sempre jogá-las ao chão. Porém seu guarda-chuva quebrou-se, o sentimento ruim que já carregava pelo acontecimento no mercado piorou por perder algo tão precioso, fechou-o de qualquer jeito na mão determinada a consertá-lo um dia, voltou para casa correndo, secou-se e pôs-se à disposição da velha rotina naquele dia sem sol.


Eduardo chegou as 22h, Tânia havia preparado o jantar e estava lendo um livro na sala, o esperando.

-Oi amor.
-Oi, amor, hoje no mercado recusaram o cartão será algum problema no banco?
-Sério? não sei, amanhã ligo para lá; E o jantar, está pronto?
-Sim.
-Ótimo, vou tomar banho e comemos.

Jogou a maleta no chão, e foi despindo-se até o banheiro, Tânia lembrava de quando eram mais jovens, ela sempre o seguia, resolveu que iria o fazer de novo, quem sabe assim poderiam ficar juntos.
Foi despindo-se no caminho, quando chegou ao banheiro ele já tomava banho ela encostou aos poucos seu corpo junto ao dele, com as mãos limpava a espuma do rosto de Eduardo que sorriu ao vê-la. Beijaram-se. A penetrou com fervor, prazer intenso que não sentia há tempos, Eduardo pensava em Sonia, sua secretária, quando abriu os olhos viu Tânia, aquilo o atingiu como uma flecha a atravessar o peito, o pulmão por alguns segundos parecia não funcionar, sentiu o prazer desaparecer, como se a água do chuveiro estivesse fria, estremeceu e largou-a, não terminou o ato, saiu do banheiro e disse estar cansado, secou-se e foi para o quarto.

Tânia sentia-se suja, vazia, mais uma vez rejeitada; Vestiu suas roupas e foi servir o jantar, limpando sempre lágrimas que insistiam em sair de seus olhos.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Lyla - Uma vida sob a desilusão

Um dia apaixonada, com sua melhor roupa, cabelos longos e lisos, sentada num banco qualquer, esperava pelo seu amado. Era mais um dos dias mais felizes de sua vida, os 21 anos que viveu por esse momento, por esse amor, esperava por Adriano, se conheciam há um mês, como foi tudo perfeito, cada problema que ela tinha fora esquecido em cada suspiro do gozo ao amá-lo, ficou observando o mundo, as folhas das árvores que balançavam de acordo com as batidas de seu coração.

***

-O que aconteceu Lyla?
Letícia perguntou com os olhos de desespero, nunca vira a amiga daquele jeito, com a maquiagem borrada, com o sorriso escondido e contorcido no desespero do choro.
-Ele me abandonou, simplesmente isso, nunca fui nada para ele, para ninguém.
E oprimiu o grito de dor.
-Amiga, calma, você tem tanto ainda pela frente. Tenho certeza que vai achar alguém perfeito para ficar com você.

Letícia era sua amiga desde os dezesseis anos, uma mulher linda, uma quase mulher, como Lyla sempre dizia, Letícia era o nome artístico, o nome verdadeiro era Rodrigo, um jovem que se travestia e levava uma vida alegre quando se montava, vestia um personagem, uma imagem. As duas estavam ali, no apartamento de Lyla, tudo revirado, a decadência de um coração partido sem a possibilidade de sobreviver.

-Vamos Lyla, você vai sair comigo hoje, acorda mulher, sábado a noite, vou te levar onde você nunca quis ir e sei que você vai amar!
-Não Letícia, eu não quero, queria mesmo era...
-Não fala bobagem mulher, você não tem nada para fazer, se quiser chorar, chora comigo lá na festa, ao menos terá muita gente para nos ouvir, vamos, eu te ajudo.

Letícia sem perceber pegou o mesmo vestido que Lyla usara no dia em que Adriano abandonou-a, e Lyla, num ato de desespero pegou de sua mão e jogou-o pela janela, assustou-se quando a dor e o ódio se misturaram, estremeceu, e parou de chorar. Vestiu-se de forma pálida, uma roupa qualquer. Saíram do prédio e pegaram um táxi, não comentavam nada, Lyla sabia que não queria ir, queria voltar para casa e sentir-se invisível. Letícia apertou forte a mão da amiga e disse:

-Chegamos, você vai ver pela primeira vez meu show e sei que vai gostar, vamos, a noite vai te acolher.

As duas entraram pelas portas do fundo, Lyla era guiada como se fosse cega, não sentia vontade de se movimentar.

-Olhe, você fica no bar, pode beber a vontade, é por conta da casa, ou melhor, por minha conta, sei que hoje é você quem precisa mais, logo depois do show venho conversar com você amiga.

A festa estava no começo, varias pessoas ainda chegando ao local, mulheres a olhavam com interesse, sentia repulsa de pensar que estava ali, sentada num banco perto do bar, ouvia os comentários, as mulheres tentando seduzi-la. Quando olhou para o banco atrás de si, um homem a olhava intensamente.

-Qual o seu nome?
-Lyla.
-Prazer, meu nome é Carlos, você é nova aqui não é?
-S... Sim.
-Olhos tristes, parece querer passar desapercebida, não sei o que está acontecendo, mas se quiser conversar, estou a disposição.
-Não estou bem, prefiro ficar calada.
-Nossa, calma, eu não mordo não, hoje meu namorado vai se apresentar, estou aqui apenas esperando que ele termine. E você, o que lhe trouxe?
-Eu... Vim com uma amiga que também vai se apresentar, não sou... Lésbica.

Carlos riu e pediu duas batidas, entregou-a para Lyla.

-O Show vai começar, vamos para frente do palco.

Antes que Lyla percebesse já estava sendo puxada por Carlos, parecia anestesiada, o medo do local a invadira por completo, a multidão que pulava, as luzes que quase não permitiam ver, ouviu então a música eletrônica do ambiente sumir aos poucos e um homem no palco chamando por aplausos.

-Gente, vamos aplaudir, hoje teremos ótimos shows ao som do nosso Dj Lucio, CADÊ A ANIMAÇÃO!

Todos histéricos, ela estática, olhando o que considerava um circo.

-AGORA, QUERO QUE VOCÊS RECEBAM LETÍCIA, NOSSA MUSA!

Procurou atentamente e viu sua amiga entrar, uma pessoa nova, um cabelo totalmente diferente do que conhecia, uma capa preta por todo o corpo, mistério, sentia-se realmente curiosa pelo que aconteceria, foi quando lhe ocorreu que por algum tempo, esquecera de Adriano.

A musica começou suave, viu sua amiga olhá-la enquanto dublava a musica internacional, era como um teatro, porém tudo tão grandioso, todas as atenções nela, Letíca ao som da batida forte tirou a capa, Lyla admirou a cena, de uma capa preta viu a amiga com um maiô brilhante, um salto enorme e os movimentos do corpo atraentes, dançava freneticamente, mantinha-a hipnotizada e trazia aplausos do grande público. No ápice do ritmo Letícia começou a girar os cabelos, parecia inacreditável, Lyla espantou-se e aplaudiu, era magnifico.

***

Esqueceu-se de Carlos e foi esperar a amiga no bar, estava admirada, olhava os outros shows que aconteciam no palco mas nenhuma era tão perfeito quanto o de sua amiga, chegou a espantar-se por sentir-se orgulhosa.

Letícia chegou e abraçou Lyla, viu o sorriso transparente.

-Esse sorriso é melhor que o choro, que bom que está feliz aqui minha amiga.
-Foi lindo Letícia. Lindo.
Ficaram pouco na festa, Letícia viu que a amiga estava cansada e decidiu a hora de ir embora, acompanhou Lyla até sua casa.

-Letícia, queria ser como você.
-Como assim, não entendi?
-Ficar ali no palco, mudar meu visual por completo, esquecer da realidade.
-Nossa Lyla, você gostou tanto assim?
-Sim, muito e quero ao menos um dia ter essa sensação, será que posso?

Letícia riu incrédula do que ouvira, feliz por ter a amiga sorrindo, preocupada com a proposta que ouvira.

-Nunca vi uma mulher fazendo isso Lyla, você só pode estar brincando.
-Não me importa, eu quero e vou fazer isso e conto com sua ajuda.

Lyla sentiu-se forte quando disse isso, ansiosa por tudo, pelas possibilidades.

-Pronto, está em sua casa, agora eu vou para a minha porque estou cansada, Lyla, eu te ligo amanhã.
-Tudo bem, beijos.

Lyla viu o táxi afastar-se, estava radiante, dentro do elevador, começou a lembrar da noite, mas foi quando sentiu um vazio enorme no peito que lembrou de sua real situação, segurou o choro e entrou em seu quarto. Afundou-se no travesseiro e chorou, chorou por Adriano, pelo vazio no peito, pelo sentimento de derrota e solidão. Uma ou duas horas depois adormeceu, sonhou que estava no palco, que era adorada e que Adriano assistia enquanto ela se apresentava, sentiu uma enorme paz.
Quando acordou sabia o caminho a seguir.

sábado, 18 de setembro de 2010

Lyla


“Um dia serei tão bela quanto ela.” Determinada, fechou o livro de fotografias, jogou-o de lado, apagou o cigarro, aquilo lhe fazia mal, sentia o enjoo chegar a cada trago, usava apenas uma calcinha branca,olhou a sua volta e viu os papeis com suas escritas espalhados pelo chão, sentia-se como mais um papel amassado, inacabado, esperando por um ponto final, mais uma historia ainda sem fim. Levantou-se vagarosamente e caminhou até o banheiro, orgulhava-se de sua decoração, luzes em volta do espelho, sua face iluminada; Viu toda maquilagem em volta da pia, saía da realidade ao imaginar que tudo era de mármore. Os cabelos cacheados eram castanhos, seus olhos cansados, lembrou da foto de uma atriz, Letícia Spiller, como admirava-a, imaginou-se numa festa ao lado dela, admiradas pela beleza, mas não se desesperou, quando viu que era apenas um devaneio, levantou rápido e tirou a calcinha, a depilação por fazer, ligou o chuveiro na temperatura morna e novamente imaginou tudo de mármore.

Ao sair prendeu os cabelos, começou a se maquiar, uma forte base, com o auxílio de uma fita adesiva puxava a sobrancelha para desenhar melhor, começou com o contorno leve dos olhos, o rosa nas pálpebras, o brilho e as cores delicadamente ajeitados em seu rosto. Os lábios pintados com fervor, cor forte, o vermelho e o vinho. Boca sedutora.

Saiu do banheiro transformada, com um rosto lindo, precisava ouvir alguma música. Ligou o som alto, as coisas no chão do quarto não a incomodava, enquanto andava mexia o corpo como um lenço ao vento, seduzia uma miragem qualquer, pegou seu melhor vestido que comprara ontem, vestiu-o com delicadeza, suas unhas vermelhas a fizeram lembrar de seus antigos amantes, de seu antigo amor, a solidão não doía mais, era feliz por ter essas lembranças, na cómoda perto da cama escolheu qual cabelo usaria, vermelho ainda era sua cor preferida, longos e brilhosos cabelos vermelhos, com pequenos cachos na ponta. Uma sandalha fina de salto alto abraçava seus pequenos pés com amor. Pegou uma bolsa com seus documentos e decidiu que era o momento de sair, mas antes olhou-se no espelho pela última vez, era uma outra mulher. Desligou o som e apagou as luzes, fechou a porta e trancou-a. Mais uma vez ia buscar por sua fama, por seu sustento. Lyla sabia que Letícia a esperava do lado de fora do prédio, pegou o elevador e saiu, imaginando-se mais uma vez na fama, no calor de ser adorada, “Em breve vão me descobrir, me adorar.” e com esse pensamento saiu por mais uma noite de sua casa.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

BREVE

TRÊS DIAS DE FÚRIA

UM CASAL NA ROTINA, VALORES QUESTIONADOS, VIDAS QUE NÃO MAIS SE ENCONTRAM

Breve, aqui em Contos em Perspectiva

domingo, 12 de setembro de 2010

42 Segundos Antes de Morrer - versão 1

Marcos fechou a janela sem pensar, o calor do ambiente fazia sua transpiração adquirir um odor repetitivo, odor de cansaço, na falta de tempo bebeu um copo d’água e foi ao quarto com passos rápidos, a parede de tijolos vermelho e espaços brancos pintados pelo cal. Sentiu sua vida retroceder, sentou na cama velha, o colchão sem lençol, mas era aconchegante, ao menos sentia-se em casa.


Ouviu de longe uma música, quando percebeu era seu celular que estava tocando, o medo de ver quem o chamava era enorme, as mãos estavam de repente frias, todos os sentidos aguçados, uma concentração extrema, quando viu o nome todos os medos e receios se confirmaram - João -

- Fala João.

-E aí “parcero”, já conseguiu a grana?

-Consegui sim, tá na casa do meu brother, vou pegar daqui a pouco.

-Ótimo, passe aqui e deixe comigo as 8 da noite, se não coloco sua cabeça a prémio, tem um mês cara, UM MÊS, não brinca comigo.

-O... Ok.

Marcos disse “Ok” sentindo um nó na garganta, sabia que joão não brincava, “Merda” pensou. Levantou e foi direto ao banheiro, o banho rápido em água fria o ajudou a pensar melhor. “Vou pegar a grana com o Dalton, se eu estiver com ela tudo fica mais fácil”

Vestiu suas únicas roupas limpas, viu na cómoda velha retratos de sua família, sua mãe que não falava com ele desde o ano passado, seu pai já falecido, sua ex-mulher que estava grávida dele. Sentiu emoção ao imaginar ter seu filho nos braços, a honra de ser chamado de pai. Não tinha tempo para isso, pegou a carteira, a arma e saiu.

No metrô fazia de tudo para não chamar atenção, já era difícil não ser revistado por onde passasse, como se seu rosto já fosse conhecido por todos. O celular vibrou novamente, um alerta (Aniversário de Tatiane), “Merda, esqueci”. Se remexeu no banco e sentiu a sensação de angústia, tinha que comprar algo ou ao menos passar na casa dela por alguns minutos, em pensar que em quatro meses ela seria a mãe de seu filho, “Tenho certeza que o guri vai ser bonito” pensou.

Caminhando pelo bairro chic da cidade percebia a diferença até no ar em que respirava, estava calmo, sabia que tudo correria bem, algumas pessoas olhavam para ele de forma estranha mas simplesmente ignorava, não tinha tempo para se preocupar. Chegou no portão de uma casa relativamente pequena comparada as outras, um portão marrom, e árvores na calçada, apertou a campainha e esperou.

-Porra cara, achei que não viria mais!

Dalton era gordinho, usava roupas de marca e tinha um jeito de falar engraçado, era o típico solteiro de classe media alta. O chamou para entrar.

-Cara, eu tive um pequeno problema com as vendas e...
Dalton parecia confuso, com medo, inseguro tentou terminar a frase, mas Marcos o interrompeu.

-Sem "enrolação" meu, e a grana, só quero a grana!

A preocupação era evidente, Dalton estava nervoso também e não sabia como explicar, começou admitindo o erro.

-Eu sempre tive uma clientela fiel, você sabe cara, mas acontece que os caras armaram para cima de mim, pegaram a mercadoria e sumiram no mapa. Eu não tenho como repor essa quantia toda, posso tentar conseguir para você até segunda feira. Você esta me ouvindo? Marcos?


Nas primeiras palavras que Dalton disse, Marcos saiu de si, como se seu corpo não mais correspondesse à sua mente, o sangue ferveu, uma forte dor de cabeça começou a atacá-lo, ouviu seu nome, “Marcos?” uma voz longe, mas lembrou do telefonema de João e logo voltou a si, sentiu enorme peso sobre o corpo, a arma que carregava começou a incomodá-lo, olhando para Dalton viu tudo que ele jamais fora, rico e com oportunidade, Marcos olhou intensamente nos olhos do então amigo, e o impulso falou mais alto.

-PLAYBOY DESGRAÇADO.
              Foi para cima de Dalton enquanto puxava a arma de dentro da cueca, passou rente ao sofá e empurrou-o um pouco, o sangue fervia nos olhos dele, Dalton assustado estava sem reação, caiu ao chão quando tropeçou no tapete, se encolhia no canto da parede, jamais esqueceria a cena, a pouca luz do ambiente que entrava pela cortina que ganhara dos pais, o rosto de Marcos suado, quente, com o ódio expresso no olhar e a arma, sendo apontada em direção aos seus olhos.

-ACHA O QUE RAPAZ, MINHA CABEÇA TÁ A PRÉMIO AGORA GRAÇAS A VOCÊ, MAS SE ACHA QUE VOU TE MATAR, ESTÁ MUITO ENGANADO!
              Abaixou-se rapidamente e pressionou a arma contra o rapaz, respiração pesada, sentiu os dedos fazendo força contra o gatilho,
-EU VOU TENTAR RESOLVER MEUS PROBLEMAS, PRINCIPALMENTE O QUE VOCÊ ME CAUSOU DALTON, ACHO BOM VOCÊ FAZER SUA PARTE, PORQUE SE EU MORRER HOJE... VOCÊ MORRE AMANHÃ.

Guardou a arma e saiu daquela casa, não sabia o que fazer, o coração dizia que a morte estava próxima, a consciência procurava uma saída rápida, inconscientemente caminhava em direção à casa de Tatiane, queria vê-la, imaginar seu filho, ao menos isso, antes de morrer.




Pensamentos a mil, de tanto que pensava perecia não pensar, pessoas olhando inquietas enquanto ele passava, talvez por medo, lembrou de quando era mais novo, mais intenso, quando assaltava qualquer um que cruzasse seu caminho por um celular ou um cigarro, mas hoje, rendeu-se ao acaso, deixou passar, nada poderia ajudá-lo, “Acho que vou fugir, ou não”.

***

Parou diante da porta sentindo a tensão em seus dedo, a falta de coragem de vê-la, o que sentira era intenso e inútil, por uma vida desregrada abandonou qualquer oportunidade de ficar com ela, não mais valia se arrepender, queria ao menos vê-la, tocou a campainha.

-Marcos? Você veio!
-Sim, queria te ver, seu aniversário, parabéns...

O olhar baixo revelava um certo arrependimento, ela se sentia triste pelo modo como ele estava, tão diferente de quando se apaixonaram.

-Olhe, vou te convidar para entrar, mas não faça besteiras, por favor, você sabe que minha família está toda aqui.
-Tudo bem, se quiser que eu vá embora...
-Marcos... Estou feliz por estar aqui, vamos, entre logo.

Se abraçaram, a barriga já estava grande, mais do que quando ele a viu pela ultima vez, nunca veria seu filho, isso parecia cortar o coração, uma tristeza grande o invadiu.
Entrou e cumprimentou a todos, sentou-se numa cadeira de plástico, esperava por redenção. Todos comentando sobre sua presença, não ligava, observava Tatiane se movimentar por todos os lados, conversando com todos, trazendo um copo de refrigerante para ele, viu como um homem a olhava, deveria ser seu atual namorado, ela nunca ficou sozinha, morena, cabelos encaracolados na altura do ombro, um corpo que outrora o seduziu, hoje, a mãe de um filho que talvez, nunca o chamaria de pai. Olhou as horas, faltava pouco para o momento de ir embora, foi quando reuniram-se para os parabéns, um bolo comprado em uma venda qualquer, pequeno e redondo, simplicidade e complexidade, todos felizes por ela, sempre tão amável.

O medo o aterrorizava, sentiu as pernas bambearem, tinha que ir, enquanto tiravam fotos olhou-a pela ultima vez, seus olhos brilhantes, saiu rápido, ninguém o viu, tinha que ir sem chamar atenção, a ultima coisa que precisava era que alguém sentisse pena dele. Andando pela rua, pouco distante da casa de Tatiane pode ouvir alguém correr, era ela, com dificuldade, sentindo um pouco de dor gritou por Marcos. Olhou para trás sem querer acreditar, ela se aproximando rapidamente, esperou-a, pode observar alguns de seus parentes olhando-o sem muito entender.

-Aonde você vai?
-Tenho que ir... Não posso dizer muito...
-O que está acontecendo? Me fale!
-Eu vou fugir Tatiane, as coisas estão complicadas para o meu lado, acho que vou para Rio de Janeiro, tenho alguns amigos por lá, tenho que ir.
-Você ainda está mexendo com aquelas coisas né. Eu te disse que...
-Pare, não diga nada, tarde demais, sei que deveria ter mudado, eu tentei, mas...
-Por que ir embora, de quanto você precisa, talvez eu possa te aju...
-Não, guarde o que tem para nosso filho, falo isso de coração, nunca acreditei muito em Deus mas sei que ele te protege agora.

Os olhos dela demonstravam certo sofrimento, ele se virou e saiu, ela não impediu, não havia muito o que fazer.

***
Na favela, João estava contabilizando seus últimos lucros, quando um de seus capangas se aproximou e disse: 
-E ai chefe, já está na hora e o cara não veio, e aí?
-“Vamo” para a casa da moreninha, ele deve estar lá.

João e mais quatro capangas entraram  na velha Van e foram rápido, Marcos não iria escapar dessa vez.

***

Marcos comprou a passagem para o Rio, partiria em três horas, sentiu-se aliviado, sentou no velho e quebrado banco da rodoviária, o grande relógio pendurado no local lembrava-lhe do dia complicado que teve, carregava a pequena mochila com poucas roupas e uma velha foto de sua mãe.

Quando faltavam duas horas para partir foi ao banheiro, quando saiu avistou um dos capangas de João, coração acelerado, não entendia o que ele poderia estar fazendo ali, mas sabia que tinha que tomar cuidado, saiu em passos lentos contornando as fileiras de bancos, não olhou para os lados e entrou em um corredor que levava à saída da rodoviária. As paredes de vidro do local permitiram que ele visse João, parado perto da velha Van, escondeu-se, conseguiu perceber outro capanga passando em sua frente, por pouco não foi visto, o coração agora estava acelerado, provavelmente fora seguido, foi o que pensou, não tinha para onde ir e antes que pensasse em algo, sentiu alguém encostando a mão em seu ombro.

-Chefe tá lá fora, te esperando, não adianta correr mais, já era.

Como se um fogo o consumisse, andou sem sentir as pernas, fechava o olho por mais de dois segundos, nada lhe passava à mente, sentiu sua mochila ser tomada de sua mão, pensou em pegar a arma, mas não era o momento, mais três capangas se aproximaram, ele iria acabar morto antes que desse o primeiro tiro.
Saíram da rodoviária em passos lentos, pessoas passavam sem perceber o que realmente acontecia, foram em direção a Van, a noite sem lua, nuvens carregadas e ar gélido, “noite boa para morrer” pensou.

-Sabia que você ia aprontar comigo, eu sabia!

Gargalhou como se tudo aquilo fosse realmente engraçado, colocaram-no na parte de trás, jogado no chão não podia fazer nada, sentiu a arma entre as pernas, esperava que a mesma passasse desapercebida. A cada quebra-mola batia a cabeça em algum lugar, sentiu um pouco de sangue na boca, mas continuou calado.

-Pensou que ia me enrolar né cara, vai ver o que te espera.

A Van foi estacionada em um terreno íngreme, colocaram-no para fora do carro com chutes e empurrões, caiu no chão novamente, estava sem saber o que fazer, apesar da noite pode ver o esgoto a céu aberto, não sabia onde estava, nunca havia ido lá, porém lembrava-lhe perto de sua casa, mas não tinha certeza.

-FALA DESGRAÇADO! CADÊ MINHA GRANA!
-Eu só posso conseguir para você na segunda-feira cara, só segunda!
-VOCÊ SÓ PODE ESTAR BRINCANDO COMIGO, VOU TE DAR MOTIVOS PARA NÃO BRINCAR!

João pegou o telefone do bolso e discou um número, chamou por Roger.

-Roger... O Rapaz só pode estar brincando comigo, tentou fugir acredita... E a moreninha dele, já está com você? Ótimo, traga ela viva, vou matá-la na frente dele, agora sim vai aprender a não brincar com qualquer um.

Tudo começou a fazer sentido de repente, mas não queria acreditar, ainda não, talvez Tatiane tivesse dito onde ele estaria, "Ela não merecia estar envolvida" imaginou então ela sofrer sob ameaças até entregar todas as informações, agora era tarde demais, ou não. 


João parado à sua frente e mais quatro capangas o cercando, estava sem saída.

Poucos minutos depois um carro chegou ao local, Roger era gordo e usava uma barba grande, os olhos inchados e cheios de olheiras, nunca o vira; João sentiu seu coração disparar quando viu Tatiane no carro com os olhos chorosos.

-DESGRAÇADO, O QUE VOCÊ FEZ COM ELA?!
-EU? Nada, ainda não fiz nada, mas eu te disse para não brincar comigo meu velho, todo mundo sabe que ninguém me passa para trás, fico imaginando... O que... você...achou que iria fazer.

Disse isso contorcendo a face, o ódio estampado em seus olhos sem brilho, fez um sinal com a mão;

-NÃO!

Empurraram Tatiane no chão, chorando ficou encolhida.
Marcos sentiu a arma incomodar, pensou em pegá-la e atirar em João mas isso não o salvaria muito menos a seu filho. Ouviu a voz fraca de Tatiane pedindo-lhe perdão.

- Agora você morre cara, não vai mais me causar problemas.

A calma na voz de João era enorme, pegou a arma do carro e começou a fazer movimentos e a sorrir, intimando Marcos, provocando-lhe medo, medo maior quando a arma foi em direção à Tatiane, os capangas se divertindo se afastavam dele, estavam à uma distancia considerável. Não pensou duas vezes, puxou a arma de entre as pernas e atirou em João, o tiro direto no coração deixou todos assustados, Tatiane gritou, quase não acreditou que estava viva, pensando que o tiro fosse na direção dela, Marcos levantou-se rápido e foi para trás do carro fugindo de dois ou três tiros que não o acertaram. Pensou que Tatiane corria perigo ali deitada, ela gritava de medo, chorava um sofrimento ainda maior pelo filho. Marcos sentiu na fria noite a morte ao redor, no momento exato em que o primeiro pingo de chuva caiu sobre seu rosto, levantou rápido e atirou sem mirar, acertou o vidro do carro de Roger, em um tiro dado, dois tiros vieram em sua direção, abaixado novamente sabia que três estavam desarmados. Era tudo ou nada. Pediu proteção à sua mãe em uma reza de dois segundos. A chuva era forte, talvez isso o ajudasse, levantou e correu pelo terreno em direção à água, corria em zig-zag sob tiros erróneos, Tatiane se arrastava para longe da confusão, quanto a ela ele estava mais tranquilo, com três tiros acertou Roger, sentiu algo queimar a perna e antes que pensasse caiu, tinha sido atingido, a dor parecia ser no corpo todo. Largou a arma e levou as duas mãos à ferida. os pingos da chuva não o permitia ver tudo com clareza, a lama do terreno estava por toda sua mão e em metade do seu rosto. Percebeu dois dos capangas se aproximando enquanto outro ligou o carro e outro a Van.

-Aê neguinho, QUE MERDA QUE TU FEZ HEIN, ta maluco velho, MATOU O CHEFE velho, ta maluco é. MAS TU ME FEZ UM FAVOR, agora posso ser dono daquele lugar, sua “mulhe” vive cara, mas você já era.

Um relâmpago forte assustou-o, viu mais claramente a arma apontada para o seu rosto, não conhecia seu assassino, morreria por um desconhecido.

-Calma velho, calma.

Marcos disse essas palavras já esperando o tiro, fechou os olhos e colocou a palma da mão na altura do peito, dois disparos foram feitos.

O carro acelerou com dificuldade no terreno escorregadio, a Van o seguiu, a chuva ficou ainda mais forte.

Ouvia-se alto os gritos de Tatiane, ela em pé, caindo de joelhos no chão, gritava a palavra “Não” a arma em sua mão também caiu, em um momento de euforia Marcos abriu os olhos e viu os dois corpos dos bandidos em sua frente e Tatiane pouco atrás pedindo perdão a Deus.


César Felipe de Sousa